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quinta-feira, 8 de abril de 2010

LUIZ GAMA, Patrono da Comissão de Igualdade Racial da OAB/RJ

Autobiografia
Luiz Gama escreveu sua própria biografia, numa carta, para seu
amigo Lúcio de Mendonça, em 25 de julho de 1880, quando tinha 50 anos de idade.
Nasci na cidade São Salvador, capital da província da Bahia, em um sobrado da Rua do Bângala, há 21 de junho de 1830, pelas 7 horas da manhã, e fui batizado, 8 anos depois, na igreja matriz do Sacramento, da cidade de Itaparica.
Sou filho natural de uma negra, africana livre, da Costa Mina (Nagô de nação) de nome Luíza Mahin, pagã, que sempre recusou o batismo e a doutrina cristã.
Dava-se ao comércio - era quitandeira, muito laboriosa. Era dotada de atividade. Em 1837 (eu tinha sete anos) depois da Revolução do Dr Sabino, na Bahia, foi ao Rio de Janeiro, e nunca mais voltou.
Procurei-a em 1847, em 1856 e 1861, na Corte, sem que a pudesse encontrar.
Meu pai era fidalgo e pertencia a uma das principais famílias da
Bahia, de origem portuguesa. Devo poupar à sua infeliz memória uma
injúria dolorosa, e o faço ocultando o seu nome.
Ele foi rico; e nesse tempo, muito extremoso para mim: criou-me em seus braços. Foi revolucionário em 1837. Esbanjou uma boa herança, obtida de uma tia em 1836; e reduzido à pobreza extrema, a 10 de novembro de 1840, vendeu-me, como seu escravo, a bordo do patacho "Saraiva".
Remetido para o Rio de Janeiro nesse mesmo navio, fui, com muitos outros, para a casa de um português de nome Vieira, à rua da Candelária, que recebia escravos da Bahia, à comissão.
Nesta casa, em dezembro de 1840, fui vendido ao negociante e contrabandista alferes Antônio Pereira Cardoso, comprou-me e com apenas 10 anos; a pé, fiz toda a viagem de Santos até Campinas.
Fui escolhido por muitos compradores, nesta cidade, em Jundiaí e Campinas; e, por todos repelidos, como se repelem coisas ruins, pelo simples fato de ser eu "baiano".
Repelido como "refugo", voltei para a casa do Sr. Cardoso, nesta cidade, à rua do Comércio nº 2, sobrado, perto da Igreja da Misericórdia. Aí aprendi a copeiro, a sapateiro, a lavar e a engomar
roupa e a costurar.
Em 1847, contava eu 17 anos, quando para casa do Sr. Cardoso veio morar, como hóspede, para estudar humanidades, o menino Antônio Rodrigues do Prado Júnior. Fizemos amizade íntima, de irmãos diletos, e ele começou a ensinar-me as primeiras letras.
Em 1848, sabendo eu ler e contar alguma coisa, e tendo obtido ardilosa e secretamente provas inconcussas de minha liberdade, retirei-me, fugindo, da casa do alferes Antônio Pereira Cardoso, que, aliás, votava-me a maior estima, e fui assentar praça. Servi até 1854, seis anos; cheguei a cabo de esquadra graduado, e tive baixa de serviço, depois de responder a conselho, por ato de suposta insubordinação, quando me tinha limitado a ameaçar um oficial insolente, que me havia
insultado e que soube conter-me.
Estive, então, preso por 39 dias. Durante o meu tempo de praça, nas horas vagas, fiz-me copista; escrevia para o escritório do escrivão, major Benedito Antônio Coelho Neto, que se tornou meu amigo; e, como amanuense, no gabinete do exmo. sr. conselheiro Francisco Maria de Sousa Furtado de Mendonça, que aqui exerceu altos cargos na administração, e que é catedrático da Faculdade de Direito, fui seu ordenança; por meu caráter, por minha atividade e por meu
comportamento, conquistei a sua estima e a sua proteção; e as boas lições de letras e de civismo, que conservo com orgulho.
Em 1856, depois de haver servido como escrivão perante diversas autoridades policiais, fui nomeado amanuense da Secretaria de Polícia, onde servi até 1868, época em que "por turbulento e sedicioso" fui demitido a “bem do serviço público”, pelos conservadores, que então
haviam subido ao poder.
A turbulência consistia em fazer eu parte do Partido Liberal; e, pela imprensa e pelas urnas, pugnar pela vitória de minhas e suas idéias; e promover processos em favor de pessoas livres criminosamente escravizadas; e auxiliar licitamente, na medida de meus esforços, alforrias de escravos, porque detesto o cativeiro e todos os senhores, principalmente os Reis.
Agora chego ao período em que, meu caro Lúcio, nos encontramos no "Ipiranga", à rua do Carmo, tu, como tipógrafo, eu como simples aprendiz-compositor, de onde saí para o foro e para a tribuna, onde ganho o pão para mim e para os meus, que são todos os pobres, todos os infelizes; e para os míseros escravos, que, em número superior a 500, tenho arrancado às garras do crime.
Obs: Foi ele que brandiu a célebre frase que afirmava “ aquele negro que mata alguém que deseja mantê-lo escravo, seja em qualquer circunstância, mata em legitima defesa”. Segundo Americo Palha, estas palavras foram proferidas de forma corajosa, da tribuna do Tribunal do
Júri.
Aqui termina a autobiografia de Luiz Gama, encaminhada a Lúcio de Mendonça, onde retrata seus fatos até 1868, apesar de ter escrito em 1880, não fazendo referencia a muitos outros fatos, que vou tentar retratar.
Luiz Gama, publicou em 1859 seu livro as “Primeiras Trovas Burlescas”.
Uma 2ª edição foi publicada em 1861 e uma 3ª, póstuma, em 1904.
Neste livro encontramos o poema "Quem sou eu?", com nome popular "Bodarrada", escrito em resposta ao apelido de "Bode" com que tentavam ridicularizá-lo. Tornou-se, o texto, precursor da crítica à ideologia racista do embranquecimento.
Poeta e intelectual politicamente engajado, merece registro o texto de seu poema “Quem sou eu ou A bodarrada”:
“Não tolero o magistrado
Que do brio descuidado
Vende a lei, trai a justiça
Faz a todos injustiça
Com rigor deprime o pobre
Presta abrigo ao rico, ao nobre...
Se sou negro ou sou bode
Pouco importa. O que isto pode?
Bode há em toda a casta
Pois que a espécie é muito vasta...
Há cinzentos, há rajados
Baias, pampas, malhados, Bodes negros, bodes brancos
E, sejamos muito francos,
Uns plebeus e outros nobres...

Luiz Gama fundou a imprensa humorística ilustrada em São Paulo, quando inaugurou o “Diabo Coxo”, em 17 de outubro de 1864, juntamente com Ângelo Agostini, resenha publicada até 24 de novembro de 1865.
Em 1866 fundou o semanário humorístico “Cabrião”, juntamente com Ângelo Agostini e Américo de Campos.
Colaborou em várias publicações “O Mequetrefe”, “O Coaraci”, o “O Ipiranga”, e em vários jornais da capital, dentre eles o “Correio Paulistano”, dirigido por seu companheiro Américo de Campos, bem como em 1875 escreveu artigos para o diário “A Província de São Paulo”,
predecessor do "O Estado de São Paulo”. Foi um dos oradores do Clube Radical Paulistano e o redator do seu órgão o “Radical Paulistano”.
Foi proprietário do histórico semanário político e satírico “O Polichinelo”, de 23 de abril a 31 de dezembro de 1876.
Considerado pelo poeta "menor" Manuel Bandeira (como este mesmo se considerava) o autor do "melhor poema satírico brasileiro", A Bodarrada, Luiz Gama se dedicou principalmente às sátiras política e de costumes, numa herança direta da sátira portuguesa.

Além da sátira, Luiz Gama também escreveu poemas líricos de inspiração romântica e foi o primeiro poeta brasileiro a escrever sobre a mulher negra, em sua dupla condição de desigualdade. Luiz Gama escrevia sobre si mesmo, sua condição social e a de seus amigos e família, os infortúnios do negro em sua época, a hipocrisia aristocrática, tornando-se um fiel herdeiro da sátira portuguesa e crítico contumaz de toda uma sociedade que marcou sua própria existência.
Com a crítica à corrupção dos políticos, à imoralidade do judiciário e à futilidade das mulheres apenas preocupadas com a moda, o autor comprou duas brigas com o poder (o que o manteve em condição quase sempre de pobreza): o combate à escravidão e a defesa dos ideais
republicanos.
Luiz Gama faleceu em 24 de Agosto de 1882, e o que era para ser um simples sepultamento transformou-se, segundo a descrição de Raul Pompéia, em “um ato público que celebrou a importância de Luiz Gama no movimento abolicionista brasileiro”.
A vida de Luiz Gama foi quase que integralmente dedicada à luta pela emancipação do povo negro, o que de imediato já mereceria um reconhecimento público, mas o que a historiografia e a história da literatura burguesa fizeram foi desprezar e ignorar a grande figura do revolucionário abolicionista e poeta, imagem que jamais poderia passar despercebida.

Depois de sua morte, os poemas de Luiz Gama foram reeditados algumas ezes, mas as edições pecavam pela inexatidão: troca de palavras, supressão de palavras, versos e estrofes.

Referências
www.sampa.art/biografias/luizgama
LOJA LUIZ GAMA

CARTA AO FILHO


Meu filho
Dize a tua mãe que a ela cabe o rigoroso dever de conservar-se honesta
e honrada; que não se atemorize da extrema pobreza que lego-lhe, porque a miséria é o mais brilhante apanágio da virtude.
Tu evitas a amizade e as relações dos grandes homens; eles são como o
oceano que se aproxima das costas para corroer os penedos Sê republicano, como o foi o Homem-Cristo. Faze-te artista; crê, porém, que o estudo é o melhor entretenimento, e o livro o melhor amigo.
Faze-te apóstolo do ensino, desde já. Combate com ardor o trono, a
indigência e a ignorância. Trabalha por ti e com esforço inquebrantável para que este país em que nascemos, sem rei e sem escravos, se chame – Estados Unidos do Brasil.
Sê cristão e filósofo; crê unicamente na autoridade da razão, e não te
alies jamais a seita alguma religiosa. Deus revela-se tão somente na
razão do homem, não existe em Igreja alguma do mundo.
Há dois livros cuja leitura recomendo-te: a Bíblia Sagrada e a Vida de
Jesus por Ernesto Renan.
Trabalha, e sê perseverante.
Lembra-te que escrevi estas linhas em momento supremo, sob a ameaça de assassinato. Tem compaixão de teus inimigos, como eu compadeço-me da sorte dos meus.
Teu pai Luiz Gama
Carta destinada a Benedicto Gracco Pinto da Gama (20-07-1859 a
20-04-1910), único filho que Luiz Gama teve com sua mulher Claudina
Fortunata Sampaio. Benedicto Gama, que cursou a Escola Militar, foi
major de artilharia do exército, e ocupou o posto de comandante do
corpo de Bombeiros de S.Paulo e foi iniciado, também, na Loja
"América". Seu filho faleceu em 20 de abril de 1910, tendo sido
enterrado num túmulo ao lado de seu pai, no Cemitério da Consolação.

Uma pequena contribuição a Comissão.
Luiz Gama, Patrono da Comissão de Igualdade Racial da OAB/RJ

Muitos conhecem o poema "bodarrada" mas poucos leram "Carta ao filho".
Verton da Conceição.

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Comissão de Igualdade Racial toma posse na OAB/RJ
Da redação da Tribuna do Advogado

31/03/2010 - Mantidas as tendências atuais, o Brasil levará 32 anos para igualar a renda dos trabalhadores negros e brancos. No ensino superior, entre os brancos maiores de 18 anos, 20% estão nas universidades, enquanto os negros são apenas 7,7%. E na sociedade, os jovens negros são os principais alvos da criminalidade violenta. Esse conjunto de dados, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), foi citado, dia 30, na cerimônia de posse da Comissão de Igualdade Racial da OAB/RJ por seu presidente, Marcelo Dias, que defendeu políticas públicas específicas "para os historicamente excluídos, negros, indígenas e outros setores marginalizados".

"Chegamos a um patamar da luta anti-racista que não nos contentam mais as leis repressivas que não punem ninguém, com políticas universalistas que mantêm o fosso entre brancos e negros", disse Dias.

A Comissão terá, como primeira pauta de sua agenda, a discussão das cotas raciais como política afirmativa. Marcelo Dias acredita que um balizador para a questão será o posicionamento do Supremo Tribunal Federal na análise de uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) do partido Democratas contra o critério das cotas raciais utilizado pela UnB para o ingresso de estudantes.

"Vamos promover palestras e seminários para levantar subsídios para que a OAB/RJ também se posicione neste tema fundamental para a juventude estudantil negra e a população negra de nosso país", afirmou Dias.

Ao saudar a nova comissão, o presidente da OAB/RJ, Wadih Damous, disse que a Ordem sempre foi de vanguarda e não poderia estar alheia à discussão das cotas raciais: "Somos uma entidade plural e, talvez, mais importante o posicionamento que iremos assumir, seja a própria abertura democrática do debate do tema. A Comissão terá todo o apoio da direção da OAB/RJ." Wadih expressou ainda o reconhecimento de que, "no nosso país, malgrado os avanços sociais e econômicos, ainda temos muito para caminhar para superarmos a desigualdade e o preconceito."

Também integraram a mesa da cerimônia de posse o subprocurador-geral de Justiça de Direitos Humanos, Leonardo Chaves; o ouvidor da Secretaria especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Humberto Adami, que representou o ministro Edson Santos; a presidente da Comissão de Direitos Humanos e Assistência Judiciária da OAB/RJ, Margarida Pressburger; o ouvidor da OAB/RJ, Álvaro Quintão; o subchefe da Polícia Civil fluminense, Carlos Oliveira; o coordenador de Políticas de Igualdade Racial do Rio de Janeiro, Carlos Alberto Medeiros e o procurador do Ministério Público do Trabalho Wilson Roberto Prudente.

Compareceram ao evento, realizado no Plenário Carlos Maurício Martins Rodrigues, líderes do movimento negro, entidades de direitos humanos, representantes de partidos políticos e de sindicatos, políticos e estudantes.

Recebido de Marcelo Dias via e-mail

2 comentários:

  1. Parabenizar Marcelo Dias e desejar que a sua passagem à frente da Comissão de Igualdade Racial da OAB possa ser uma coleção de sucessos e agente condutor dos novos caminhos do Direito Étnico em nosso estado.

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  2. Parabéns Marcelo Dias e vamos a luta sempre!!
    È necessário um fio condutor!!!
    O ser humano deve ser o início e o fim de nossas ações e preocupações!!
    Obrigado.

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