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terça-feira, 13 de julho de 2010

NÓS E OS OUTROS NA MÚSICA NEGRA CONTEMPORÂNEA - Carlos Negreiros


A herança africana nos ensina que o universo é uno, ligado às divindades e que no nosso planeta, essa unidade é representada pelo conjunto dos elementos de toda a natureza, que compõem o mundo em que vivemos.
No conceito afrocentrista, o homem, a terra e os deuses se compõem em um só universo , contrapondo-se ao eurocentrismo , onde Deus dispõe sobre os homens e os homens dispõem sobre a terra.
Frobenius,(1849/1917) Pensador alemão,concluiu que tanto a técnica, ciência e razão quanto a emoção , levavam a mesma percepção cognitiva..
Inspirados na mesma teoria , os pensadores Aimé Cesaire,da Martinica, Leon Damas, da Guiana Francesa e Leopold Sedar Senghor, do Senegal, que viria a ser presidente daquele Pais, criaram a teoria da Negritude que se constituia na percepção do ambiente através da sensibilidade e a constatação através da técnica.. Na mesma linha, em Cuba, Alejo Carpentier e Nicolas Guillen criaram a teoria que denominaram Negrismo.
Na mesma época Franz Fanon(1925-1961) concluiu que o racismo não era mais ligado a característica física e sim se constituía na interferência na forma de existir tendo a exclusão cultural ou colonização de mentalidade como condição para se adquirir visibilidade.
Em 1968, Senghor que era membro do comitê organizador do Festival de lagos, na Nigéria, visitou a Orquestra Afro Brasileira que era dirigida pelo meu mestre, o Maestro Abigail Moura e que tinha como sede a Radio MEC . Na ocasião nos explicou de forma simples a sua teoria com o exemplo da cadeira, dizendo:”se pedirmos para um nórdico dizer onde esta sentado, ele responderá : um objeto de 4 pés que sustenta um acento e um encosto. Se fizermos a mesma pergunta a um africano, terá como resposta: sinto que estou sentado em uma cadeira. Cognitivamente, ou seja, pela percepção do corpo, os dois entrevistados chegaram a mesma conclusão.
Todas essas considerações servem como embasamento para a explanação do tema” Nós e os outros na musica negra contemporânea” de que trata esse artigo
Há uma diferença marcante na percepção do conteúdo da musica negra, entre nós, que a produzimos, muitas vezes inspirados em melodias perenizadas na tradição afro brasileira , colocando a linguagem do tambor de forma soberana e presente e nos levando , como conseqüência. à sensação de estar tocando por fora e cantando e dançando por dentro . Em contrapartida, os produtores que normalmente a viabilizam no mercado do Brasil oficial. , utilizando esse manancial apenas como uma reserva em que pode extrair aleatoriamente fragmentos que vão servir de material descartável para alimentar, como novidade momentânea e exótica o mercado , impondo modelos oriundos de uma realidade totalmente descomprometida com a nossa cultura.
As vozes percussivas que é um conceito que desenvolvi. a partir de muitos anos de observação dos tambores afro brasileiros,oriundos dos campos religiosos e ou lúdicos, guardam semelhanças em sua formação. Apresentam nas regiões agudas e médias células rítmicas que se repetem e conversam entre si e o intervalo entre elas é em torno de uma terça . A região média pode ainda incluir no seu discurso elementos da aguda e finalmente o grave que é totalmente livre podendo, inclusive, utilizar as células de qualquer região em seu discurso. É ele que pontua os fatos importantes da historia que está sendo contada e o intervalo com relação aos médios e em torno de uma quarta . Para conseguir determinar as alturas usamos como modelo a escala de Dó(C) e consideramos o grave como o número um.
Nketia kwabena em seu estudo comparativo das linguagens da áfrica abaixo do Saara chegou a conclusões que se aplicam também a nossa realidade cultural,citando por exemplo que: ” Algumas vezes a melodia é construída a partir do som e do ritmo produzido pelos tambores ou ainda que entre as escalas musicais mais usadas estão as pentatônicas e hexatônicas” .Essa organização pode ser considerada como identidade.na ancestralidade e na musica moderna tanto lá quanto aqui.
Na mesma linha está a afirmação contida na pesquisa que Roberto Mendes fez em parceria com Waldomiro Junior sobre a chula de Santo Amaro, na Bahia. ” A chula está na raiz da musicalidade brasileira e é genuinamente africana....O lamento das modinhas portuguesas por sobre a liberdade da harmonia percussiva africana, gerou uma musica única que é matriz de vários gêneros da musica brasileira com característica afro descendente”
O Brasil oficial sempre se espelhou na cultura euro centrista .Sabemos que do final do Séc XIX até meados do séc XX a cultura francesa era status e símbolo e civilização. Os saberes e hábitos do povo eram considerados fora dos padrões de civilidade. Essa visão ainda hoje influencia o reconhecimento e respeito pela nossa produção cultural .
A cultura popular é dinâmica e se adapta às transformações do seu tempo,sem perder a essência.Cunhei a frase “Quem tocava para o santo tocava para o samba” que foi reproduzida muitas vezes em comentários feitos por formadores de opinião, principalmente por ocasião dos desfiles das Escolas de Samba.
Na época em que os meios de comunicação eram limitados. O samba e o santo, ambos excluídos se misturavam nas manifestações do povo invisível. Na medida em que aumenta a comunicação com a entrada da industria fonográfica,televisão grandes festivais,formação e desenvolvimento de grupos interessados em política social, e na pesquisa envolvendo o Brasil real, a invisibilidade sobre a nossa produção cultural diminui .
Aí, entra em cena o filtro. Os donos dos meios de produção que vieram o Iê, Iê, Iê, e de outros modismos, condicionam e limitam a criação, impondo e construindo estereótipos, em formatos direcionados para o mercado norte americano, apresentados como modelos representativos da cultura afro descendente .Alguns poucos escapam. Citamos como exemplo do Compositor, arranjador e musico de alto nível Moacir Santos ,recentemente falecido , Martinho da Vila, e outros poucos que representam um percentual ínfimo do universo da criação da nossa musica ,.”Tá legal, eu aceito o argumento/Mas não me altere o samba tanto assim/ Olha que a rapaziada está sentido a falta/ Do cavaco do pandeiro e de um tamborim” (Paulinho da Viola.)
Com a intensificação da globalização e a democratização da internet tudo fica mais rápido e a dinâmica da cultura popular que se recria assimilando e transformando o que lhe chega, sem perder a essência, se revela incapaz para absorver tamanho volume de informação.
Por questões sócio-econômicas, nos locais carentes, onde o negro é maioria a inclusão digital é mais lenta e ou ausente. Nesses locais a produção cultural , embora seja influenciada pela mídia globalizada, incorpora, em conteúdo e forma, componentes ligados às manifestações que antes existiam e que permanecem ligadas cognitivamente ao individuo . Percebemos então no Ragae, funk, Hip Hop,Rap,street dance, a mistura com o samba, com o ritmo congo ou com a dança afro e samba nas coreografias . Nas manifestações em áreas rurais ou regiões fora do eixo Rio S. Paulo a colocação de instrumentos estranhos à formação tradicional, também é usada na tentativa de se inserir no mercado globalizado. È uma usina de transformação usando o velho para criar o novo.
Na geração Y que é aquela nascida nos anos 80, em ambiente cibernético, com valores diferenciados e sentido lógico estimulados pela linguagem dos computadores a percepção é rápida e não mais pelo corpo como um todo. Como conseqüência , a capacidade de absorção e utilização da informação bem como o descarte do que julga imprestável passa a ser rápida e natural.
Mais uma vez aparece o filtro. Só que mais sofisticado e frio. Ainda os donos dos meios de produção, de mídias, divulgação e controle dos mercados ,que tiveram acesso pleno as novas ferramentas e técnicas da computação, permanecem na posição de senhores absolutos . A criação entra. O criador fica de fora e não tem controle do produto que será gerado e nem da comercialização da sua obra em larga escala
O que fazer? Para onde ir?
Buscar ações governamentais no sentido de:
Incentivar pesquisa acadêmica envolvendo produção cultural e mercado para musica de essência negra do Brasil
Capacitar e desenvolver os membros das comunidades e núcleos produtores da nossa musica em particular e cultura afro descendente no geral ,para que possa participar em todos os estágios da produção a comercialização do produto.
Criar no Curso de capacitação digital uma linha que explore todos os aspectos dos novas mídias envolvidas com a produção e comercialização de produtos musicais pela internet, deixando o aluno pronto para desenvolver essa atividade em sua comunidade ou núcleo. São apenas algumas sugestões que refletem o desejo de ver o nosso povo orgulhoso da sua negritude.
“ Reuni o em mim restava/E gritei meu grito sem fim que ecoará pelo tempo
Nós somos como o sol!/Nós somos como o vento!
E nada poderá impedir a nossa presença”



Carlos Negreiros

Um comentário:

  1. Caro Mestre,

    Suas palavras são de uma lucidez esclarecedora e nos ajudam a organizar o caos interno das ideias.
    Acho que fundamental que se diga em espaços de discussão como este o que o contexto é movente e, apesar das reminiscências políticas, os desafios do presente não são os mesmos que no século XX, ou seja, a exclusão funciona de outra forma, por outros meios - o que (a julgar pelos discursos) ainda não parece bastante claro para os núcleos mais tradicionais do nosso Movimento Negro.
    De fato, precisamos nos apropriar destes modelos culturais que suscitam o consumo imediato e de fácil assimilação, para sermos capazes de explodi-lo e ultrapassá-los ou de desmontá-los e utilizá-lo de outro modo, como diz o Manuel Rui em seu 'Fragmento de ensaio'.
    A meu ver, você pertence, assim como Moacir Santos e Martinho da Vila, a esse grupo dos 'que escapam'. Quem conhece suas composições não tem dúvidas disso.

    Um forte abraço!

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